Ana Paula Volpi

Família

Relação difícil com a mãe: por que ainda pesa

Você resolve coisas complicadas no trabalho, sustenta conversas difíceis, toma decisões que afetam outras pessoas. Aí sua mãe faz um comentário de dez palavras e alguma coisa em você desmonta. Não é imaturidade, e não é falta de terapia. É que aquela relação foi a primeira, e o que se aprende primeiro não fica guardado como lembrança. Fica funcionando como régua.

Por que essa relação pesa mais que as outras

A relação com a mãe é a única que começou antes de você poder ter opinião sobre ela. Todas as outras relações da sua vida foram construídas por alguém que já existia. Essa não. Ela veio antes de você ter linguagem, antes de você ter noção de onde terminava você e começava o mundo.

Foi ali que se decidiu, sem ninguém decidir nada conscientemente, o que significa ser cuidado, o que custa ser amado, e o que era preciso fazer para não ser deixado de lado. Isso não fica registrado como memória de um acontecimento. Fica registrado como funcionamento.

Por isso um comentário pequeno consegue um efeito grande. Ele não está chegando na adulta ou no adulto que você é hoje. Está chegando numa régua que foi instalada antes de você poder discutir os termos.

Não é que você regrediu. É que essa parte nunca envelheceu junto.

A primeira relação não fica na memória. Fica no jeito de funcionar.

As formas mais comuns disso aparecer

Quase nunca chega com o nome de problema com a mãe. Chega disfarçado de outra coisa, e é por isso que costuma demorar a ser reconhecido.

Aparece como a sensação de nunca estar fazendo o suficiente, mesmo com evidência do contrário. Como culpa por querer distância de alguém que você também ama. Como uma irritação desproporcional que só acontece com ela. Como dificuldade de dizer não, dentro e fora de casa. Como escolher parceiros que reproduzem exatamente o clima que você jurou não repetir. Ou como a inversão de papéis, quando é você quem cuida, ouve e sustenta, e já era assim quando você tinha doze anos.

Reparar que esses itens conversam entre si já é um começo. Eles costumam ser leituras diferentes de uma mesma frase antiga.

O que este texto não vai fazer

Não vou transformar a sua mãe em vilã. Isso vende bem na internet e ajuda pouco, por dois motivos.

O primeiro é que ela é uma pessoa real, com a própria história, que também foi filha de alguém, e que não está aqui para responder. O segundo é mais prático: culpar não muda nada. A pessoa sai da leitura com um culpado novo e com o mesmo funcionamento de antes.

Também não vou dizer que ela fez o que pôde e que está tudo bem. Às vezes não fez, e às vezes não está. Frase de conforto genérica, dita para quem foi de fato maltratado, funciona como um segundo silenciamento.

O que dá para fazer é outra coisa, e é a única que está ao seu alcance: olhar para o que ficou morando em você.

O que de fato dá para trabalhar

Sua mãe, como pessoa, pode mudar ou não. Isso não está nas suas mãos, e boa parte do sofrimento vem de insistir justamente aí, esperando o reconhecimento que nunca vem no formato esperado.

O que está nas suas mãos é a versão dela que você carrega por dentro. A voz que comenta as suas escolhas quando ela não está por perto. A exigência que continua ligada mesmo depois que ela desligou o telefone. Essa parte é sua, e por ser sua, é trabalhável.

Quando isso começa a se separar, muda uma coisa concreta: a conversa continua difícil, e você para de sair dela em pedaços. O comentário chega, e não organiza mais o seu dia.

Você não precisa que ela mude para deixar de ser governado por ela.

Sobre culpa

Muita gente trava antes de começar, e o motivo costuma ser o mesmo: falar da mãe parece traição. Existe até uma frase pronta para isso, a de que quem reclama é ingrato.

Vale desarmar isso. Reconhecer que uma relação te machucou não apaga o que ela teve de bom, e não é uma sentença sobre a outra pessoa. As duas coisas cabem ao mesmo tempo, e quase sempre é assim que é.

A culpa que aparece nessa hora costuma ser, ela própria, parte do que foi aprendido. Falar já é começar a mexer nela.

Quando a questão é outra

Uma distinção importante, e ela não é detalhe. Relação difícil é uma coisa. Relação que faz mal de forma continuada é outra, e o caminho lá não passa por entender melhor.

Se o que você está descrevendo envolve agressão, ameaça, controle da sua vida ou humilhação sistemática, o assunto deixa de ser vínculo e passa a ser proteção. Escrevi sobre esse limite, e sobre o que fazer com ele, em como colocar limites na família.

Entender a origem de alguma coisa nunca é motivo para continuar suportando ela.

Onde continuar

Se o que mais te chamou atenção foi a parte sobre repetir o clima da infância nas relações de agora, o texto é por que eu repito o mesmo tipo de relacionamento. E se você quer entender como esse tipo de trabalho acontece na prática, está em psicanálise.

Perguntas frequentes

É normal sentir raiva da própria mãe?

É comum, e sentir não faz de você uma pessoa ingrata. Raiva costuma aparecer onde houve expectativa, e expectativa costuma aparecer onde houve vínculo. O problema quase nunca é a raiva em si. É não ter onde colocá-la, e então engoli-la e sentir culpa por tê-la sentido.

Preciso perdoar minha mãe para melhorar?

Não. Perdão pode ser uma consequência do trabalho, e às vezes não é, e mesmo assim a pessoa melhora. Tratar o perdão como tarefa obrigatória costuma ter o efeito contrário, porque acrescenta mais uma cobrança a quem já se cobra demais. O que ajuda é entender, e entender não é o mesmo que aprovar.

Faz sentido fazer terapia se minha mãe já morreu?

Faz. A relação não termina com a morte, ela só deixa de ter a outra pessoa presente. As exigências, as vozes internas e o que ficou por dizer continuam ativos, e às vezes ficam mais fortes, porque já não há a chance de conversar. É um trabalho frequente na clínica.

Falar disso não é culpar minha mãe pela minha vida?

Não, e essa é a diferença que o trabalho tenta sustentar. Entender de onde vem uma exigência que você carrega não é entregar a responsabilidade da sua vida para outra pessoa. É recuperar a parte que é sua, que costuma ser justamente a que estava invisível.

Continue por aqui

Todos os textos sobre família

Se essa relação ocupa mais espaço em você do que você gostaria, isso já basta como motivo para conversar. Atendimento online para todo o Brasil e presencial em São Paulo, sob agendamento.

Agendar uma sessão

Atualizado em 29 de julho de 2026.