Ana Paula Volpi

Família

Culpa materna: a sensação de nunca ser suficiente

Ela aparece quando você trabalha, e quando deixa de trabalhar. Quando perde a paciência, e quando engole tudo e não perde. Quando sai sem as crianças, e quando fica e queria estar em outro lugar. Uma culpa que muda de motivo mas não muda de intensidade não está falando do que você fez. Está falando de outra coisa.

Uma palavra sobre o nome

Chamo de culpa materna porque é assim que se procura por isso. Mas a cobrança não vem da biologia. Ela cai sobre quem ocupa o lugar do cuidado principal, e esse lugar pode ser de uma mãe, de um pai, de uma avó ou de quem assumiu a criação.

O que essas pessoas têm em comum não é o corpo. É a posição.

Por que ela nunca fecha a conta

Culpa comum tem começo e fim. Você fez alguma coisa, reconhece, repara, e ela cede. É desconfortável e é útil, porque aponta uma direção.

Essa não funciona assim. Ela não some quando você acerta, apenas troca de assunto. Trabalhou demais, culpa por ausência. Trabalhou de menos, culpa por não estar dando conta. Impôs limite, culpa por ser dura. Não impôs, culpa por ser permissiva.

No fim, a frase que sobra costuma ser sempre a mesma: eu sou uma péssima mãe. Repare que ela não descreve nenhum episódio. É um veredito, e veredito não admite prova em contrário.

Quando qualquer alternativa produz o mesmo resultado, a conta não está sendo feita sobre o que você faz. Ela já estava fechada antes.

Culpa que não muda com o comportamento não está avaliando comportamento.

Ela não mede o que você faz de errado. Mede o tamanho da régua.

Quando é hora de procurar avaliação médica

Antes de seguir, uma parada necessária, porque nem tudo o que chega com o nome de culpa é culpa.

Existe quadro clínico aqui, e ele é frequente e tratável. Depressão pós-parto e depressão ao longo da criação não são falta de esforço nem fraqueza de caráter, e não se resolvem com organização da rotina. Procure avaliação médica se você perdeu a vontade de fazer o que gostava, se não consegue dormir mesmo quando há oportunidade, se sente um cansaço que o descanso não alcança, se está sem conseguir se conectar com o seu filho, ou se isso já dura semanas sem folga.

E existe uma situação que não é para agendar consulta, é para procurar ajuda agora: se aparecer pensamento de se machucar ou de machucar o seu filho. Isso acontece, mais do que se admite, e não faz de você um monstro. Faz de você alguém que precisa de socorro imediato. O CVV atende no 188, gratuito e 24 horas, e o SAMU no 192.

Eu sou psicanalista, não sou médica, e essa avaliação não é comigo. Dizer o que não é da minha competência é parte de fazer bem o que é.

De onde vem a régua

Voltando à culpa. Ela costuma ser feita de camadas, e nenhuma delas nasceu com o seu filho.

Uma camada é o modelo com que você foi criada. O que se dizia sobre boa mãe na sua casa, o que se criticava nas outras, o que a sua própria mãe fazia e você jurou repetir ou jurou nunca fazer. As duas promessas cobram caro.

Outra camada é pública. Existe hoje uma quantidade de conteúdo sobre criação que nenhuma geração anterior enfrentou, e boa parte dele funciona como aviso: se você fizer errado, você marca essa criança. É um discurso que se apresenta como informação e chega como ameaça.

E uma terceira, mais silenciosa, é a exigência que você já aplicava a si mesma antes disso tudo. Quem se cobrava demais no trabalho e nas relações raramente se cobra pouco na criação. Muda o assunto, não a régua.

Você não inventou essa medida. Só ficou encarregada de aplicá-la em você.

O que ajuda, e o que só aumenta a conta

O conselho mais repetido para isso é o de cuidar de si. Ele não está errado, e costuma chegar de um jeito que atrapalha, porque vira mais um item da lista. Quem já se sente em falta agora se sente em falta também por não estar descansando direito.

O que costuma mexer de verdade é diferente, e é mais lento. É reconhecer a exigência como exigência, e não como retrato fiel da realidade. É poder dizer em voz alta, em algum lugar, o que não se pode dizer em nenhum outro, inclusive o cansaço e a raiva, sem que isso vire uma sentença sobre você.

Uma criança não precisa de uma mãe impecável. Precisa de uma mãe presente o suficiente, que erre e repare, e é assim que ela aprende que errar não destrói vínculo.

Reparar ensina mais do que acertar sempre teria ensinado.

Onde continuar

Se a régua que você aplica a si mesma parece vir de casa, o texto que segue esse fio é relação difícil com a mãe. Se a culpa vem acompanhada de aperto no peito e pensamento acelerado, os textos estão em ansiedade.

Perguntas frequentes

Sentir culpa quer dizer que estou fazendo algo errado?

Nem sempre, e essa é a parte que confunde. A culpa costuma ser mais intensa justamente em quem se importa muito, e não em quem descuida. Ela mede o tamanho da sua exigência interna, e não o tamanho da sua falha.

É normal não gostar de todos os momentos com meu filho?

É comum, e dizer isso em voz alta ainda é quase proibido. Amar alguém e achar a rotina com essa pessoa exaustiva não são coisas incompatíveis. O que costuma pesar não é o cansaço em si. É a sensação de que não se pode admiti-lo.

Terapia vai me dizer o que estou fazendo errado na criação?

Não é isso que acontece. O trabalho não avalia o seu desempenho como mãe nem entrega um manual de criação. Ele olha para de onde vem a exigência que você aplica a si mesma, que costuma ser bem anterior à chegada do seu filho.

Preciso levar meu filho junto para a terapia?

Não. Se o que está em jogo é a sua culpa e o seu cansaço, o trabalho é seu e acontece com você. Quando o atendimento é da criança, aí sim o enquadre é outro e envolve os responsáveis desde o começo, mas isso é um trabalho diferente deste.

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Atualizado em 29 de julho de 2026.