Ana Paula Volpi

Ansiedade

Crise de ansiedade: o que fazer na hora

Se você está no meio de uma agora, comece pela seção abaixo e deixe o resto do texto para depois. Não é preciso entender nada neste momento.

Antes de tudo, uma coisa que não dá para pular

Se é a primeira vez, ou se os sintomas estão diferentes das outras vezes, procure atendimento médico. Isso vale principalmente para dor no peito, falta de ar, dormência de um lado do corpo ou desmaio.

O motivo é direto. Crise de pânico e emergência cardíaca se parecem por dentro, e essa diferença não se resolve por texto na internet, nem comigo: eu sou psicanalista, não médica. Ser avaliado e ouvir que o coração está bem não é exagero nem tempo perdido. É informação que muda o que vem depois.

Em emergência, o SAMU atende no 192. Se você está pensando em se machucar, o CVV atende no 188, gratuito e 24 horas.

Cuidar do corpo primeiro nunca atrapalhou o cuidado com o resto.

O que está acontecendo no corpo

Uma crise é o sistema de alarme disparando sem incêndio correspondente. O corpo faz o que faria diante de um perigo real: acelera o coração, muda a respiração, tensiona a musculatura, tira sangue das extremidades. Por isso as mãos formigam e a sensação é de que algo terrível está prestes a acontecer.

Esse conjunto é assustador justamente porque é eficiente. Não é fraqueza nem falta de controle. É um mecanismo antigo, feito para salvar, ligando na hora errada.

Você não está enlouquecendo. Você está com o alarme ligado.

O que costuma ajudar enquanto passa

Não existe botão de desligar, e desconfie de quem promete um. O que existe é atravessar com menos briga.

Costuma ajudar alongar a expiração, deixando a saída do ar mais longa que a entrada, porque é isso que sinaliza ao corpo que o perigo passou. Costuma ajudar sentar e apoiar os pés no chão. Costuma ajudar nomear o que está acontecendo, mesmo em voz baixa, dizendo que é uma crise e que ela tem fim. E costuma ajudar procurar alguma coisa concreta em volta, uma textura, um som, a temperatura do ambiente, porque o pensamento catastrófico se alimenta de ficar só dentro da cabeça.

Se tem alguém por perto, pedir companhia em silêncio já é o suficiente. Ninguém precisa dizer nada.

O objetivo não é fazer a crise parar. É não brigar com ela enquanto ela termina.

A crise não é o corpo te traindo. É o corpo tentando te proteger de alguma coisa que ele leu errado.

O que costuma não ajudar

Tentar se convencer de que não é nada costuma piorar, porque a pessoa passa a lutar contra a própria sensação e o esforço aumenta o alerta.

Também costuma atrapalhar procurar sintomas na internet no meio da crise, que é quando cada resultado vira confirmação do pior. E fugir do lugar onde ela começou dá alívio imediato, mas ensina ao corpo que aquele lugar era mesmo perigoso, o que aumenta a chance de repetir.

Quase tudo que promete alívio rápido cobra o preço na próxima vez.

Depois que passa

Costuma sobrar um cansaço fora de proporção com o tempo que durou. É esperado, e não é sinal de que alguma coisa ficou. Vale comer, beber água e não cobrar de si um dia produtivo logo em seguida.

Vale também anotar, sem análise nenhuma, o que estava acontecendo antes. Onde você estava, com quem, o que tinha acabado de ser conversado ou adiado. Não é para descobrir a causa sozinho. É material para o trabalho que vem depois.

A crise é um ponto de chegada de alguma coisa que vinha se acumulando antes dela.

Quando isso vira assunto de terapia

Quando começa a se repetir, e principalmente quando o medo de ter outra passa a organizar as suas escolhas: deixar de dirigir, evitar lugares cheios, recusar convites, não se afastar de casa. É nesse ponto que a crise deixa de ser um episódio e vira um regime de vida.

No processo, a crise deixa de ser tratada como inimiga a ser eliminada e passa a ser lida como o que ela é, o momento mais alto de um alerta que já estava ligado antes. Sobre essa leitura escrevi em o que a ansiedade está tentando dizer. E se a sua dúvida é entre terapia e medicação, o texto é terapia ou remédio para ansiedade.

Terapia não é canal de urgência. É o que faz a urgência voltar menos.

Perguntas frequentes

Quanto tempo dura uma crise de ansiedade?

O pico costuma ser curto, de alguns minutos, ainda que pareça muito mais longo por dentro. O mal-estar depois dele pode se estender por horas, e isso não significa que a crise voltou. Se o quadro se prolonga muito ou se repete com frequência, procure avaliação médica.

Crise de ansiedade pode matar?

A crise em si não é considerada perigosa para o corpo, por mais assustadora que seja a sensação. O cuidado importante é outro: os sintomas se parecem com os de emergências cardíacas e respiratórias, e essa distinção quem faz é um médico, não você nem eu. Diante de dor no peito ou falta de ar, procure atendimento.

Dá para prever quando vai acontecer?

Nem sempre, e é justamente a imprevisibilidade que costuma assustar mais do que a crise. Com o tempo, muita gente passa a reconhecer sinais que vêm antes, e reconhecer já muda alguma coisa, porque tira o elemento de emboscada.

Depois de uma crise eu fico com medo de ter outra. Isso é normal?

É extremamente comum, e tem nome de tanto que se repete: o medo de ter medo. Ele costuma levar a pessoa a evitar lugares e situações onde a crise aconteceu, e é aí que a vida vai encolhendo. Esse ponto costuma ser um dos primeiros a serem trabalhados em terapia.

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Se as crises estão se repetindo, elas costumam ter o que dizer, e isso é trabalho de processo, não de emergência. Quando você estiver bem para conversar, me manda uma mensagem.

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Atualizado em 28 de julho de 2026.