Ana Paula Volpi

Ansiedade

Terapia ou remédio para ansiedade?

Começo dizendo o óbvio, porque ele muda como você deve ler o resto: eu vendo terapia. Quando alguém que vive de atender responde a essa pergunta, vale desconfiar da resposta. Então vou tentar a única coisa honesta que dá para fazer aqui, que é dizer também quando o caminho não passa por mim.

Não são dois times disputando

A pergunta costuma ser feita como escolha entre opostos, e ela não é. Remédio e terapia agem em camadas diferentes do mesmo problema, e não competem pelo mesmo lugar.

A confusão vem de dois discursos que se enfrentam por fora. De um lado, a ideia de que basta tratar quimicamente e o assunto se encerra. Do outro, a ideia de que remédio é muleta e que quem é forte resolve conversando. Os dois são caricatura, e os dois deixam gente sem tratamento.

Perguntar qual dos dois é melhor é como perguntar se é melhor o analgésico ou descobrir a causa da dor.

O que a medicação faz, e o que ela não faz

Falo daqui do meu lugar, que é o de quem acompanha pessoas medicadas, e não o de quem prescreve. Quem avalia, indica e ajusta é o médico, em geral o psiquiatra.

O que se observa é que a medicação costuma baixar o volume. Ela reduz a intensidade do alarme e devolve sono, concentração e a possibilidade de atravessar o dia. Isso não é pouco, e não é disfarce.

O que ela não faz é responder por que o alarme ligou. Ela não desfaz uma exigência que você carrega desde sempre, não conversa a conversa que você está adiando e não muda a sua relação com o que sente.

Baixar o volume não é a mesma coisa que entender a música.

O que a terapia faz, e o que ela não faz

A terapia trabalha justamente a parte que a medicação não alcança. É onde se investiga o que a ansiedade está sinalizando, o que se repete, e o que precisa mudar para que o alarme tenha menos motivo para disparar.

O que ela não faz é agir rápido. Um processo não interrompe uma crise que está acontecendo hoje à noite, e não substitui avaliação médica em quadro grave. Prometer isso seria vender o que não tenho.

Terapia não é para o momento agudo. É para que ele deixe de ser a regra.

Um cuida do incêndio. O outro pergunta por que a casa continua pegando fogo.

Quando procurar médico vem primeiro

Esta é a seção que soa contra o meu interesse, e é a mais importante do texto.

Procure avaliação médica antes de qualquer outra coisa se a ansiedade está impedindo você de dormir de forma continuada, se as crises estão se repetindo, se você já não consegue trabalhar, estudar ou sair de casa, se apareceram sintomas físicos intensos, ou se você tem usado álcool e outras substâncias para conseguir atravessar o dia.

E se você está pensando em se machucar, isso não é assunto de agenda. O CVV atende no 188, gratuito e 24 horas, e o SAMU no 192.

Ninguém consegue elaborar nada em estado de alarme permanente. Às vezes o primeiro passo do trabalho é tornar o trabalho possível.

Como isso costuma acontecer na prática

Muita gente faz os dois ao mesmo tempo, com profissionais diferentes que sabem um do outro. Não é sinal de gravidade nem de fracasso. É a combinação mais comum, e costuma ser a mais confortável para quem está sofrendo.

Se você já é acompanhado por um médico, isso não atrapalha em nada o processo. Pelo contrário, é informação que ajuda. E se em algum momento eu perceber que faz sentido uma avaliação, eu vou dizer, sem tratar isso como derrota.

Uma coisa que eu não faço, em hipótese nenhuma, é opinar sobre a sua receita. Nem para aumentar, nem para diminuir, nem para parar. Melhorar no processo é assunto para levar ao seu médico, e não motivo para decidir sozinho.

Cuidar bem de alguém às vezes é saber o que não é da sua conta.

Onde continuar

Se você quer entender o que a ansiedade costuma estar sinalizando, o texto é o que a ansiedade está tentando dizer. Se o que você precisa é atravessar um episódio agudo, está em crise de ansiedade: o que fazer na hora. E como funciona o processo no dia a dia está em terapia.

Perguntas frequentes

Preciso tomar remédio para fazer terapia?

Não. Uma coisa não é condição da outra. Muita gente faz um processo inteiro sem nenhuma medicação, e muita gente faz os dois juntos. O que define isso é o seu quadro, avaliado por um médico, e não uma regra geral.

Psicanalista pode receitar remédio?

Não. Prescrição é ato médico. Psicanalista e psicólogo não receitam, não ajustam dose e não suspendem tratamento. O que eu faço é escutar como a medicação aparece na sua vida e, quando faz sentido, sugerir que você procure uma avaliação.

Se eu começar a terapia, posso parar o remédio?

Essa decisão é do médico que prescreveu, sempre, e nunca minha. Interromper por conta própria pode ter efeitos importantes, inclusive quando a pessoa está se sentindo bem. Melhorar é justamente um assunto para levar à consulta, não um sinal para agir sozinho.

Remédio não é só tapar o sintoma?

Essa frase circula muito e faz estrago. Quando a ansiedade está impedindo dormir, trabalhar e pensar, reduzir a intensidade não é disfarce, é o que torna qualquer outro trabalho possível. Ninguém elabora nada em estado de alarme permanente.

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Atualizado em 28 de julho de 2026.